terça-feira, janeiro 11, 2005

FRIA TEMPESTADE


Que maldito frio arrependido
É esse que me prende como um bandido
E me força a lamentar-me
Por algo que me julgo certo e convicto?

Minha insuportável alma gelada,
Longe da fogueira dos desejos,
Percebe que só não é nada,
A não ser um aglomerado de versejos mal feitos.

Mas são versejos
Que me farão voltar a mostrar os dentes
A olhar pra frente e seguir este caminho inconsequente,
Que tracei ao te cuspir de volta pro mundo.

Sim, voltarei a sorrir, como sempre o fiz,
E este fim infeliz, há de ser uma parte da raiz
Da nova vida que me espera, e boa será,
Como é, foi e já era.

Vou, sim, acatar a vingança que me impôs
Por saber-me digno do teu castigo,
Por saber-me ser eu a semente da tua fúria.
Mas ei de ainda ver doçura nos teus olhos em brasa,
Fingindo ser pura, enquanto arrasa esta cruel criatura
Que agora vos fala: Eu.

Entretanto, por enquanto, sigo assim:
Pagando a pena
Que é pequena,
Como a lembrança do nome
Que se perde na rima,
E que só não digo
Por no fim desses versos
Já tê-lo esquecido.

2 comentários:

Luísa Mota disse...

Olá Claudio,

Creio ser necessário preparar-me, antes de começar a ler-te, dada a carga emotiva a vários níveis, que os teus textos emanam, são poderosos e pronto.
Li agora o "Católico". No comments. Bravo.

Por vezes lembras-me Neruda, não pelo conteúdo, mas pela determinação.

Permite-me mostrar aqui um pequeno excerto de um texto, escrito pelo chileno, que vai de encontro á pessoa que tu és....querido Claudio.

" ... Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As inesperadas ... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ... Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras."
(Neruda)


1 Bj*
Luísa

Anônimo disse...

profundo