segunda-feira, julho 25, 2016

A última letra.

Então, que fique você com a palavra final.
E dela, pode beber até a última gota,
Saborear o subtexto de cada sílaba
Se embebedando na tua certeza de ter sempre razão.

Os meus argumentos eu lanço no tempo,
E deixo que os dias os façam mais sóbrios
E quando a ressaca da intransigência  estiver latejando,
Quem sabe eu esqueça daquela frase não dita,
Que fecharia um parágrafo que já nem vale mais ser ouvido.

Encerro o debate pontuando o silêncio com um suspiro cansado,
E sintetizo esse pensamento num sorriso irônico  
Para que vire um texto calado, ainda que escrito 
Nas pausas eternas dessa última discussão.



segunda-feira, maio 09, 2016

A Cerca

Nós derrubamos a cerca
E invadimos o terreno baldio do tempo
Lá estava você com a foice na mão
Ceifando as flores secas que nunca brotaram
Foi pra isso que percorremos esse longo caminho?
Onde está a colina verde com rio de água limpa que tanto sonhamos?
Até o brilho do sol queima nossa pele
Exatamente como fez com as pétalas das rosas

Nós derrubamos a cerca
E encontramos as ilusões que outro dia juramos ser verdade
Invadimos o terreno das flores que nunca murcham
O ar aqui cheira a plástico e nada parece real.
Foi pra isso que andamos tanto?
Caminhamos nos círculos infinitos de nossos próprios sonhos
Para chegar num paraíso de brinquedo?

Nós derrubamos a cerca
E não importa quão quente seja o dia
Seguiremos nesse grande deserto
Regando a areia até que dela brote as rosas de verdade
Vamos empilhar as pedras até que se tornem colinas
Não há porque ter medo.
A foice já nos cortou.
A cerca já não existe mais
Nós já fugimos do tempo
Não há porque ter pressa.
Estamos, enfim, livres.

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Então, chore.

Derrama essa lagrima na página,
Faz um rabisco por cima e deixa passar.
Só não turve a vista com água salgada.
Há tanto para se ver na vida,
Chora teu choro alto,
Sem murmúrio, Sem lamento,
O choro, bem chorado, vira sorriso.
Aquela lembrança boa, afogada no mar de tristeza,
Que, agora, te tranquiliza a alma.
Dor, medo, solidão, ódio,
Seja qual for a química da sua lágrima,
Deixa ela diluir no calor das boas memórias
Mesmo o pior dos invernos
Sempre carrega lembranças de um bom verão para refrescar a alma.
Mas se até o passado  atormenta,
Olha o hoje, o agora.
A vida vira numa esquina.
Abre a janela e deixa a luz entrar.
E se não há luz,
Se a penumbra da noite embala tua insônia, não te desespera.
Não demora e o sol volta trazendo o novo dia.
Por que não há dor que dure pra sempre.
Não há mágoa que atravesse a eternidade,
Não há lamento que ressoe no infinito da madrugada.
Chora! 
Mas lembra que até as lagrimas mais sofridas, um dia, secam.


15/01/2016

sábado, janeiro 03, 2015

Nicanor

Era estranho para Nicanor representar a si mesmo através de palavras. Cada peso daqueles anos mal vividos na infancia lhe pareceriam um tijolo a menos que agora lhe faltava na casa.  Tentava manter o sorriso composto, a expressão confiante, tão em moda naqueles tempos. Mas o fato é que estava perdido em si. Abençoado pela sempre boa vida que Deus lhe deu, os filhos, a mulher, o bom emprego, e até o sofrimento da juventude lhe pareciam medalhas no peito. Dizia a todos que na vida deve se entender o sofrimento, mas ele mesmo pouco havia sofrido. Nunca lhe faltara nada, nem cerveja, nem dinheiro, nem amor, nem solidão... Talvez mal amado pela mãe, bem certo que era, mas era ela uma em um milhão. Todos eram entusiasmados com Nicanor. A aparencia bonachona, o alegria esfusiante e o sucesso profissional rendiam bons elogios vindo dos amigos. A vida social de Nicanor era um ilusório oásis no deserto que existia em sua alma.

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Tanto tempo que não revejo essas páginas que já nem sei como andar por aqui.

Cada palavra bem ou mal escrita me diz pouco. Estranhos lamentos de alguém que não conheço mais e quem nem sei se conheci. O tempo rejuvenesce mesmo quando envelhece, mesmo quando tudo parece fraco e oco, o tempo vem e te faz novo. Sempre há o outro dia. Os fortes não morrem e, diante do tempo, até os fracos se tornam fortes. "Não se entra duas vezes num mesmo rio", mas o rio não muda de lugar, quem muda são os peixes. E, ainda assim, são os mesmos peixes de sempre.

segunda-feira, julho 09, 2012

Por que a vida tem dessas coisas? (*ou desabafo de um disléxico... )

Porque mesmo quando estamos apáticos a tudo, a vida ainda assim instiga? Porque quando menos desejamos a paixão, mais ela nos atraí? Porque a vida muda numa fração, num raio, num sinal fechado para aquele que atravessa a rua, num sinal que a desconhecida nos faz e que nos congela a vícera, num beijo de despedida que nunca mais se tornará o abraço do reencontro? Porque a vida nos impõe o viver? Porque a vida nos impõe da dor, e porque quando nos acostumamos a ela, a vida nos leva ao prazer e novamente nos dá a rasteira que só ela, a vida, saber aplicar nos incautos... Não é ridículo o sabio sofrer por paixão? É como o guerreiro implorando pela vida ao inimigo? Por que dentro do meu ser, tem um ser que me trai, que me leva para caminhos inseguros, que me ataca, ataca os que amo e depois some... Porque tem outro especialista na mentira, me transformando o bom que nunca poderei ser? Porque, amigos!? Porque sofremos e rimos tantos...? Porque o choro solitário parece tão unico e ao mesmo inaudível a todos? Silencia agora! Quantos rirem, quantos choram? Porque a vida é esse mar de emoção, mesmo quando não o desejamos. Porque viver é tão bom e tão prazeroso ao mesmo tempo em que tudo é dor!!  Porque não somos como a rocha, porque choramos tanto, porque nos traímos, nos amamos... Porque nos sentimos tão únicos se não somos! Porque as pessoas vão embora, e porque nunca sabemos para onde elas vão? Porque tudo parece tão comum e ao mesmo tempo tão espantoso e assustador?! Que piada é essa, que quando achamos entender, nos revela outra faceta desconhecida?! Porque nascemos para ser tão ignorantes, tão tristes e ao mesmo tempo porque somos capazes de viver os maiores prazeres do mundo!! ?? Não sei... porque? Não sei... Infelizmente não sei. Só sei que os dias tristes se alternam aos bons, a ignorância a sabedoria, bem como há o dia e a noite... E nada mais é controlado! Nada... Porque a vida é assim?

Livro de Jó. Minhas perguntas para o Deus da Igreja... (*ou, megalomania maior que a minha eu não admito)


Eis que agora Tu me olha do alto, com seu terror no olhar, ó Ser Eterno? Me criaste pro mundo, para sofrer, chorar, morrer enquanto fica aí, acomodado na tua confortável nuvem se distraindo com o belo e o perfeito e quando tudo sai errado se exime da culpa, ó Hipocrita?

O que te fiz? Porque me abandonaste, quem foi o demonio que tirou sua companhia que aquecia meu coração e te transportou para nuvem, te deu barba e um cajado para me punir depois da morte? Me digas: te diverte castigar os homens que erram? Te diverte lançar o diabo ao esquecimento eterno? Te diverte o choro dos teus filhos ignorantes?! A mim... Não me diverto o sofrimento dos mortais!

O que foi? Está me achando desrespeitoso? Vai me julgar, Ó Canalha? Vais julgar o filho que levou uma vida debaixo do teu sol ardido, carregando essa bendita cruz que tu me impôs, sem ajuda Tua, ó Preguiçoso? 

O Padre me contou que quando me arrependo Você me perdoa. Mas me perdoar de que? O que Te fiz? Eu por acaso levei teus pais, como tu fez comigo? Eu por acaso lhe botei numa estrada solitária, exposto a fome, a doença, ao mal, na certeza que no fim de tudo ainda virá o castigo? Eu lhe amei, lhe respeite e você ainda me pede ser um temente? O que mais deseja de mim, Ó Ganancioso!? Lhe paguei com a vida, para que Tu pudesse desfrutar a eternidade!?

O Padre me Pede para olhar pro céu, mas e minha alma corrupta, quem olha por ela? E o inverno que carrego no peito, quem aquece? Eramos uma dupla até o padre me dizer que tu estava no céu, Ó Traidor!... Na infancia lembro de Tê-lo sempre ao lado, sofrendo comigo, errando comigo, envelhencendo, adoencendo e renascendo... Sempre comigo. Por que fostes pra nuvem e por que agora me cobra do alto de Tua onipotencia!? Não és o Onipresente? Então porque não está mais comigo, porque agora só faz é me castigar e me assustar e me cobrar! Não acha que basta de cobranças? Não acha que basta de desafios? Já lhe provei minha fidelidade e mesmo assim vai continuar me provando, Ó Guloso!? 

O padre falou que o Céu é dos humildes! Como pode ser se Tu, ai de cima, é o mais Arrogante? Não foi Tu também tentado pela ganancia, ó Luxurioso?

Não temo tua foice! Não lhe devo nada. A minha conta está paga porque no fim sou eu que vou morrer, a dor quem vai sentir é Teu filho, enquanto Tu estará lavando as mãos para aplicar Teus castigos. 

Estou só e não vou mais ouvir o padre. Lhe abandono no alto de sua nuvem, mas mantenho minha alma aberta que que tu a mim retorne, se assim for de Tua vontade! Não tenho mais forças para ir a Tu... Venha, então, Você a mim. Pois sei que sou, ainda que o padre não tenha dito, uma face da Sua própria Existência.

quinta-feira, junho 07, 2007

MUDANÇA

Quero só dizer
Que tais lembranças ruins, só continuam ser ruins por serem lembranças,
E que deste tempo em que estive triste,
Nada me foste tão terno quanto a saudade da mente serene que outrora tive.

Quero dizer que as coisas ruins pensadas, que trouxeram as mágoas, a chaga... Não mais se chegam a este peito quente, ainda que seja frio.
E esse tremor sombrio que carrego no alto das palberas são apenas fiapos de culpa teimando... em vão... não me deixar olhar adiante...

Por isso, não mais confio na vista, essa arma pessimista que matou-me 'a alma, enquanto me fazia enxergar-me artista.

Vaidoso, acreditei na minha arte rançosa, e misturando versos tristes com prosa... me fiz infeliz em texto... e acabei por me tornar o contexto de dores que nunca tive.

Hoje já não escrevo mais nada, nem ao menos leio, apenas observo, com certo receio, essa alegria calada.. o final feliz que, certamente, minh'alma sombria não saberia traduzir em palavras.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

EXORCISMO

Segura em ti este suspiro e,
Antes que termine de me ler,
Mergulha-te no fundo d´alma
E cospe aquele domônio que jaz,
Mas que ainda te faz retorcer...

Revira os olhos num suspiro afoito
E como que se estivesse no intervalo do coito
Urra um grito rouco, sem força, dissimula o sufoco
E mostra teu corpo sem couro.

Escancara teu pecado esdrúxulo
E escarra na tua mesquinharia infantil
E verá que ser sábio não é mais que ser burro
Que encontra o prazer numa mijada senil.

Abandona teu desejo fútil,
Lamenta sua utilidade inútil
Se reencontre com as forças
Que você nunca viu...
E será, enfim, quase você.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Infeliz

Ainda que fossem tristes as coisas por mim faladas,
Ainda que sejam mal ditas essas palavras sinceras,
Vale dizer-te o que penso e,
Ainda que eu não pense tais coisas,
Haverá de acreditar em mim:

Haverá de acreditar na beleza que descrevi e que você não viu...
Haverá de se ressentir da tristeza que tu versejas sem ter lido...
Haverá ainda de lembrar da alegria, outrora esnobada,
Que você viu passar ao seu lado enquanto chorava
Lamentando por algo não visto... porém desejado.

Assim é o ser infeliz.
Que chora sem lágrimas,
Que esperneia sem raiva,
Que odeia sem ódio...
Aquele que, sem ter porque morrer,
Se mata em vida pra fugir da vida que não conheceu...

...E ainda que esteja morto, triste... infeliz,
Haverá de lembrar das minhas palavras
E haverá, certamente, de negá-las...

Ainda que seja tarde.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Velhos Amigos

Há um mês atrás ele ainda conversava sozinho. Acordava e se dava bom dia, se dava boa tarde, se dava boa noite, agradecia o almoço que ele mesmo preparava e quando a casa estava desarrumada era com ele que ele ia se queixar. O habito era antigo, vinha desde a infância, e grande parte de sua formação e base foi construída pelos conselhos que ele mesmo se deu no decorrer da vida. Nunca brigava consigo. Discussões existiam, é claro. Mas eram superadas rapidamente por um sorriso diante do espelho ou mesmo pela piada antiga que sempre que ele contava, ele mesmo ria. Era seu amigo. E cultivava por si o mesmo carinho e amor que teria por um parente, caso tivesse um. Por isso achou tão estranho quando da noite para o dia deixou de falar.
Não houve briga ou qualquer outra coisa, ele simplesmente foi dormir e na manhã seguinte acordou sem se dar bom dia. No almoço também ficou em silêncio e quando voltou da rua parecia estar mais calado ainda. Desde então não se falou mais e não quis sequer se perguntar o motivo.
Por irônia ou castigo, nesse mês de silêncio o silêncio da casa acabou por atormentá-lo mais que o seu. Só então percebeu o quanto eram calados os móveis, os quadros e até as fotos, outrora tão sorridentes, agora estavam silenciosas como as estátuas e, também como as estátuas, pareciam estar sempre lhe observando. Conseqüência foi que ele também passou a observar mais as fotos e pôde perceber que na casa só haviam fotos suas, tiradas por si mesmo. Umas antigas, outras recentes, em algumas sorrindo, noutras mais sério, mas somente fotos dele, tiradas por ele, que agora olhavam pra ele e, como ele, em absoluto silêncio. Obvio que sabia sobre o próprio hábito de tirar fotos de si mesmo. No passado era capaz de passar um dia tirando as fotos, e depois passar outros tantos dias comentando consigo mesmo o resultado final. Mas agora, todas as fotos lhe pareciam tristes e melancólicas, e não representavam nada além de alguém sozinho impresso num papel.
Sentiu vergonha das fotos, e só não as escondeu para que ninguém as visse, porque um mês antes ele mesmo havia se dito que não havia ninguém além dele. Acreditava em tudo que se dizia, e por isso não levou em conta que talvez o dito fosse outra mentira que ele estivesse contando pra si e assim parou de conversar consigo, deixou de gostar das fotos e descobriu a solidão.
Melhor. Ainda que equivocado, agora estava livre pra encontrar outro amigo quer não fosse ele mesmo.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Às Moscas

Acreditava que moscas eram anjos. Não que tivesse alguma consciência disso, não tinha. Mas, ao contrário dos seus semelhantes, as moscas não lhe causavam aquele asco instintivo, mas sim um estado de contemplação e perplexidade. “Como não poderiam ser anjos?”, pensaria se fosse capaz de pensar. As asas, os olhos, tudo nas moscas lhe parecia divino. “Se não são anjos, são demonios.”, concluiria em seguida. Mas, não conhecendo nem anjos nem demonios, portanto incapaz de diferenciar um do outro, passou a infância sonhando ser mosca.
"Melhor que ser formiga, verdade seja dita". Mal iniciava a vida e já estava convicto disso. O tempo só fez por lhe deixar mais seguro de suas convicções. Fosse a inveja da suposta dinvidade das moscas, fosse a lógica irracional de que se fosse mosca seria divino, mas o fato é que algo realmente mudára seu intimo. Não era mais como os outros, não seria mais capaz de ser, talvez até por nunca ter sido, e mesmo que quisesse não poderia mais viver num formigueiro.

Partiu.
Sabia que as moscas voavam jardim adentro, muito alé das laranjeiras, onde ele, diariamente, recolhia folhas. Como não podia voar, decidiu caminhar. Se era capaz de caminhar incessantemente em prol da comunidade, por si caminharia muito mais. Sentiu que caminhando poderia chegar onde quisesse e, certamente, chegaria no lugar pra onde as moscas voam. O lugar que mesmo sem ter visto, já conhecia dos sonhos de infancia que, agora, naqueles dias e noites de andarilho, voltavam a lhe preencher o espirito.
Assim atrevessou a segunda metade da vida. Caminhando pra onde voavam as moscas e sonhando com a chegada. E se por um lado ele envelheceu a cada passo, por outro seu sonho permaneceu jovem, alimentado pelas moscas que, ao contrário dele, pareciam incassáveis... Então, velho e cansado, já não tinha forças pra carregar um sonho, mas sabia que naquele formigueiro distante, deixado pra trás, o sonho encontraria outro como ele, que num dia olhando as moscas no céu, sonharia ser moscas, e também como ele, partiria. Portanto já podia descançar em paz, pois, apesar de não realiza-lo, deixava o sonho amparado.

Fechou os olhos e só então percebeu o forte zumbido, mais forte do nunca antes tinha ouvido. “Hoje o céu está repleto de moscas.” pensou, agora que já tinha aprendido a pensar. Não estivesse de olhos fechados, veria que as moscas, dessa vez, não estavam no céu, e sim ali, sobrevoando em círculos um monte escremento num canto de jardim... "mas as moscas não passavam de um detalhe” pensou ainda, antes de morrer sorrindo.

quinta-feira, outubro 27, 2005

no inferno.

Hoje eu joguei um futuro no lixo.
Me lembrei de quando era moleque
E abri mão de tudo sem pensar... Minto.
Pensei, sim.
Pensei um sonho que não sonhava faz tempo,
E tamanha me foi a saudade dele,
Que nessa noite sem sono
Fiz de um pesadelo aquele sonho distante.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Álbum ou Sombras.

Sentada na rua, só queria ouvir o passado. Era uma pena não ter gravado aquele tempo ido, era uma pena não ter outro registro que não aquelas fotos. Tivesse um som de lembrança, um movimento, talvez, poderia se desprender das fotos e, assim, deixar de procurá-las no chão.

segunda-feira, agosto 29, 2005

Até Amanhã

Não era, mas parecia um adolescente enciumado:
- Promete que não vai esquecer de mim?
Ela prometeu sem entender o porque da pergunta.
- E promete que vai me deixar fazer parte da sua vida? Sempre!
Não tinha como ser diferente!
- Não esquece que eu te amo.
E como ela poderia esquecer?
- Te amo muito, muito! - disse sorrindo pra ver se enganava choro.
Ela pensando que era assim que as pessoas fortes faziam quando estavam tristes, também sorriu:
- Você se separou da mamãe, mas eu continuo sendo sua filha, pai. - disse com a sua voz de menina, enquanto descia do carro. - Isso não muda.
E se despediram com a certeza de estarem juntos.

domingo, agosto 28, 2005

Primeiro Encontro

Se não tivesse pego a mania de chamar a mulher do vizinho de querida os dois não estariam juntos até hoje. Era sem maldade. Pelo contrário, Durval dizia o “querida” até com certo respeito, justamente para evitar um possível mal entendido entre ele e o marido da dita. Entretanto, em doze anos de casamento, jamais havia chamado Noêmia, sua esposa, de querida, e mesmo as outras mulheres que atravessaram-lhe a vida, fossem namoradas, parentes ou amigas, jamais haviam recebido o tal tratamento. Exceção feita a vizinha.
O primeiro “querida” já veio no primeiro encontro. Entrava no elevador quando viu a nova moradora chegando com as malas. Mais por costume que por cavalheirismo, segurou a porta do elevador.
— Muito obrigado. - Agradeceu a vizinha, cordial.
- Por nada, querida. - Não, não foi uma cantada, muito menos uma demonstração de informalidade, pelo contrario. Durval, coincidentemente ou não, foi seco, frio e desprovido de floreios.
Desde então o tratamento se tornou praxe e, estivesse ele com a esposa ou ela com o marido, o “querida” era sempre dito no mesmo tom e ritmo, e anos mais tarde seria definido por Noêmia como “a reverência” que lhe “cortava a honra”.
-Que reverência?! - Levantou da cama assustado.
- Essa forma absurda que você trata a morena do 601.
- Morena do 601?!
- Nossa vizinha, Durval! Fala, por que você chama a ela de querida?
Durval coçou os olhos ainda dormentes, sabia que aquela pergunta, ainda sem reposta pra ele, viria um dia, como de fato veio.
- Ora, Noêmia, sei lá. Chamo de querida porque não sei o nome. - o que era verdade.
- Mentira. Você nunca chama ninguém de querida. Nem eu que sou sua mulher.
- É porque o seu nome eu sei. Você não acha que eu tenho algo com a vizinha, acha?
Noêmia sabia que não. Mas explicou que mesmo assim aquela era uma situação humilhante pra ela e lhe pediu, implorou pro Durval nunca mais chamar a vizinha de querida.
- Tá prometido, Noêmia. Amanhã mesmo eu pergunto o nome dela e acabo com a polêmica. Satisfeita?
Não foi no dia seguinte, mas uma semana depois, numa coincidência provocada, os quatro envolvidos se viram ali, juntos no mesmo elevador. Durval e Noêmia, a vizinha e o marido. Noêmia foi a primeira a falar no que a vizinha lhe respondeu de pronto:
- Bom dia. - repetindo a frase da outra sendo, no entanto, mais simpática.
Chegara a vez de Durval:
- Bom dia... - por costume ia concluir com o "querida", mas lembrou-se da promessa que até ali não vinha sendo cumprida. - Como é mesmo seu nome? - disse surpreso com o estranho nó na garganta que lhe entrecortou a fala.
- Rosane. O nome dela é Rosane. - respondeu o marido da vizinha, quase que num desabafo.
Pronto. O constrangimento estava pra sempre desfeito. E o que é melhor: pelo marido da outra que finalmente se fez presente como homem, vibrou Noêmia consigo. Com certeza ele também sentia vergonha parecida com a dela, talvez até maior, pois no caso dele se tratava de um estranho chamando a esposa de querida e os homens são mais recalcados com essas coisas, porém são mais recalcados ainda quanto ao assumirem suas fraquezas, sabia ela, e talvez por isso o marido tenha se omitido por tanto tempo. Não importava, antes tarde do que nunca o problema estava resolvido. De agora em diante os dois casais poderiam iniciar uma convivência harmoniosa de vizinhos... Entre o sexto e o sétimo andar Noêmia pensou que ela e Durval quase não tinham amigos e talvez fosse a oportunidade, agora que não existiam mais constrangimentos, de serem até, por que não, amigos.
O elevador parou. Durval e a mulher desembarcaram seguidos pela vizinha e o marido. Durval culpou a angina pelo desconforto que sentia e, com sucesso, se esforçou para parecer natural, tanto que tomou a iniciativa na hora da despedida. Primeiro o marido:
- Tchau. - depois Rosane. - Tchau, Rosane. - pronto, assunto encerrado, pensou.
Poderia ter encerrado mesmo, mas a voz baixinha, quase tímida, se fez frorte o suficiente para ser entendida determinando assim um novo começo.
- Meu nome é Rosane, mas se você quiser pode me chamar de querida.
E mesmo que ele não quisesse já não era mais possível chamá-la de outra forma.

domingo, agosto 21, 2005

...saudade...

Foi se, então sem ter pra onde ir,
Por sentir que estaria bem onde estivesse
Contanto que não fosse ali,
Onde as rosas já não mais florescem
E sem flores, sem espinhos
Viveria sem galhos, sem raiz.

Foi brotar noutro jardim,
Mas sofreu ao perceber
Que em todos seria assim,
Pois a roseira que se orgulhava em ser
Não passava de um arbusto
Preso a um vaso de xaxim.

sábado, agosto 13, 2005

SE PUDER...

Puxa-me dos dedos algo que eu tenha a dizer,
Reflita-me nos olhos a imagem perdida
No intervalo da piscada
Onde olhava-me no espelho
Dessa alma imaginaria
Incomodada com o peso
De um corpo limitado.

Controla-me os movimentos e sentidos
E deixa que os sentimentos
Sejam apenas fluidos
E não escaras doloras
Perfurando minha carne.

Mantenha-me o pescoço erguido
Quando minhas verdades se afogarem em mentiras
E na hora de assinar minha penitência,
Não peço que trate minha alma com clemência,
Mas sim que me perdoe o corpo
Me mantendo o brio nos olhos,
Pois sabes na tua sabedoria divina,
Que é difícil ser humano,
Manter-se humano, morrer humano,
Sem cair no engano de ter sido torpe.

Testa-me o espirito em matéria,
Também quero eu saber o quanto ele se sublima
Diante das imposições da carne...
E se eu viver,
Um dia, ainda em vida,
Deixa-me compreender o significado dessa sensação ambigua
De ser alma sublime e ao mesmo tempo, nesse meio tempo,
Ter fim.

segunda-feira, maio 23, 2005

EPITÁFIO

De repente me veio a certeza de que morrerei esquecido.
Fui traído pela aquela esperança adolescente
De que o futuro são realizações dos sonhos
Idealizados no passado
Pra nunca se tornarem presente.

Envolto em terra, cercado de vermes por todos os lados,
Abandonarei qualquer pensamento
Sem esperar que alguém dê ouvido
Pras coisas que um dia eu quis ter contado,
Pois se assim eu também tivesse agido,
Certamente já teria morrido
... Esquecido...
Mas menos angustiado

sábado, abril 30, 2005

LAÇOS FEMININOS

No meio do parto,
A parteira puxou a criança,
Perguntou pra mãe se ela a queria,
E a mulher não sentiu nada,
Que não um latente desejo de recusar a cria.

O fez. Como, eu não sei.

Mas sei que a menina se fez,
E desafiando sua sina,
O abandono numa esquina qualquer,
Encontrou uma mãe que a queria
- E, mesmo sendo mãe postiça,
Valia por duas de sangue. -
E a criança, não conhecendo tais laços,
Se deixou envolver pelos braços da mulher
Que pra sempre a chamaria de filha.

Assim começou sua família.

Vieram irmãos, pais, depois padrastos,
E na rotina do dia a dia
Foi crescendo a menina,
Que, sem perceber, num golpe de vista,
Se deitava na sala do parto.
Agora num hospital,
Mas que lembrava-lhe aquele velho quarto,
De um passado invertido,
Visto na saída de um ventre
Nem um pouco maternal.

Uma nova criança nascia.

E entrelaçadas pela corrente sangüínea,
As duas corrigiram aquele esquecido momento triste,
Pois essa outra filha que vinha,
Vinha certa de estar sendo bem vinda.