segunda-feira, maio 23, 2005

EPITÁFIO

De repente me veio a certeza de que morrerei esquecido.
Fui traído pela aquela esperança adolescente
De que o futuro são realizações dos sonhos
Idealizados no passado
Pra nunca se tornarem presente.

Envolto em terra, cercado de vermes por todos os lados,
Abandonarei qualquer pensamento
Sem esperar que alguém dê ouvido
Pras coisas que um dia eu quis ter contado,
Pois se assim eu também tivesse agido,
Certamente já teria morrido
... Esquecido...
Mas menos angustiado

sábado, abril 30, 2005

LAÇOS FEMININOS

No meio do parto,
A parteira puxou a criança,
Perguntou pra mãe se ela a queria,
E a mulher não sentiu nada,
Que não um latente desejo de recusar a cria.

O fez. Como, eu não sei.

Mas sei que a menina se fez,
E desafiando sua sina,
O abandono numa esquina qualquer,
Encontrou uma mãe que a queria
- E, mesmo sendo mãe postiça,
Valia por duas de sangue. -
E a criança, não conhecendo tais laços,
Se deixou envolver pelos braços da mulher
Que pra sempre a chamaria de filha.

Assim começou sua família.

Vieram irmãos, pais, depois padrastos,
E na rotina do dia a dia
Foi crescendo a menina,
Que, sem perceber, num golpe de vista,
Se deitava na sala do parto.
Agora num hospital,
Mas que lembrava-lhe aquele velho quarto,
De um passado invertido,
Visto na saída de um ventre
Nem um pouco maternal.

Uma nova criança nascia.

E entrelaçadas pela corrente sangüínea,
As duas corrigiram aquele esquecido momento triste,
Pois essa outra filha que vinha,
Vinha certa de estar sendo bem vinda.

sábado, abril 23, 2005

FOLHETIM

Não preciso de você agora,
Mas acontece que naquele minuto sem hora,
Em que você me ligou,
O filme da vida rodou
Na cinemateca do meu passado não revelado.

Nessa reprise o mocinho não busca mais uma velha parceira
Que lhe pari-ou-parta um filho numa bebedeira,
E lhe diga depois que tudo que disse antes
Foram verdades erradas, sub influciadas,
Por um montão de besteiras.

Não me importa mais esse roteiro escrito ao acaso,
Onde não existe final feliz,
A não ser os gritos, os tapas e os filhos,
Que, por sorte, ecoam agora,
Como se fossem clichês premeditados
Entrelaçando a trama de uma falsa estória,
Escrita num romance folhetinesco,
Incendiado por um amor farsesco,
Que se desgasta em meia hora.

quinta-feira, abril 07, 2005

OBVIAMENTE QUE É!

Disseram, a mim, outro dia,
que a vida não é colorida.
O dito não passa de um verdadeiro absurdo,
Pois todos sabemos que o homem
Nasce vermelho, casa de branco e morre de luto.

Meu Camarada.

Eu tenho um velho camarada,
Que nunca deixou de apertar minha mão,
Nem naqueles tempos de que nada lembro,
Nem nos dias maçantes da juventude,
E ainda agora
Sinto a mão deste meu querido amigo
A me bater na cabeça
Me chamar de menino
Me explicar as coisas que não entendia,
Mas que hoje enfrento sem medo
Por que esse velho me disse como o fazer.

Todas as manhãs me ligava,
Me buscava pra não me ver só,
Fazia das minhas cada dor sua,
E mesmo quando eram dores fúteis,
Era ele quem me ensinava a cura.

Nunca chorou. Sorriu bastante.
E quando eu me lamentava,
Este meu velho camarada
Firmava o azul dos olhos nesses meus castanhos,
E me olhando como quem olha um estranho,
Dizia que aquelas eram lágrimas úteis,
Pois, não só amoleciam a dureza da alma ali castigada,
Mas como também continham toda a beleza
Que só existe nas lágrimas bem choradas.

Depois me enxugava o rosto
E apertava minha mão
Como quem segura um filho que cai,
E, eu, por ser um filho de algum do seus filhos,
O sentia maior que meu pai.

Assim seguiram as horas daqueles dias seguros,
E agora, aqui, mesmo que distante,
Longe desse meu camarada brilhante,
Sinto sua presença a cada instante,
Pois foi ele um dia quem me disse
Que, enquanto ele caminhava pro seu destino,
Eu apenas começava o meu caminho,
E que o amigo do peito está no peito,
Nem sempre ao alcance da mão.

Então, vou seguindo nessa noite intranqüila,
Escutando sua voz
Como se fosse um sussurro me guiando no escuro,
Dizendo que não é só a morte que leva os homens,
Mas vida também nos leva
E é por ela que devemos nos deixar carregar,

Eu deixo.
Mas não me esqueço de também carregar
Esse meu camarada comigo.

domingo, março 27, 2005

MÚSICA

Ouve o barulho que vem da janela,
Escuta cada grito, cada ruído, gemido,
Percebe o som do vento tranqüilo
E deixa ele varrer o estrondoso silêncio da solidão.

Abre os ouvidos pr’esse mundo desconhecido,
Que os olhos não vão tocar,
Mas os tímpanos gravarão em cada detalhe,
Sabendo ser cada um deles uma nota da melodia,
composta por sons de vidas
Trazidos no vento.

Então,
Seja na forma de tempestade ou de brisa,
Respira esse ar vívido
Deixa que te circule nas entranhas,
E quando jogar pra fora, respira alto.
Assim, junto da tua porção de gás carbônico,
Vai vir também um suspiro sinfônico
Que diluído num acorde harmônico,
Se perderá em algum compasso,
Eternamente tocado,
Pela silenciosa orquestra universal.

sábado, março 12, 2005

FERVURA


Mesmo me queimando nas tuas borbulhas,
Continuo a beber cada gota dessa água fervente,
Fervida no fogo alto, alimentado por tua amargura,
Que, embora não tenha matado, me deixou bastante doente.

Dessa boca que beijei outrora, carrego apenas bolhas ardentes
Que só fizeram foi massacrar minha língua.
Que hoje já nem mais grita e nem xinga
Só lambe os restos daquele amor decadente.

Mas se o ardor da queimadura ainda massacra,
Por outro lado já me adaptei a fervura,
E, não sabendo a cura, convivo com essa ressaca.

Digo até que esse passado meu deu bom presente,
Pois agora, lambendo um'outra língua recente,
Vejo que tua tortura só deixou minha boca mais quente.

domingo, março 06, 2005

Diálogo Idiota

- Há quantos anos estamos aqui
Nesse mesmo quarto, nessa mesma vida
Vazia, quando o que na verdade o que eu mais queria
Era ter de volta aquela tua juventude perdida?

- Então porque ainda não foi? Porque ainda não se libertou de mim e seguiu pra onde bem quis?

- E queria que eu foste pra onde preso a você
Como quem se prende numa cela com grades redondas,
Cercadas de carne por todos os lados?

- Lamenta essa vida que seguimos juntos, não é? Mas diga?
Quem te carregou? Quem te manteve em pé para que visse
As luxurias que agora você diz não ter visto?
Quem se sacrificou por cada vontade sua?

- De que adianta. Se essa minha vontade de vida
Você ameaça com sua existência perecível.

- O que houve com a sua esperança!
Costumava se achar eterno
E agora teme se ver abandonado?
Não era eu o monte de carne,
O simples corpo que você estava apenas usando?

- E não é exatamente isso?
Um corpo finito que vai se evaporar com o tempo.

- Te evaporo junto. Não esquece que você está em mim.

- Por esse instante. Hoje estou aqui, amanhã estou ali../

- (INTERROMPE) E um dia: jaz.

- (IRÔNICA) Bobagem, acredito na vida eterna.
Já você, não pode se vangloriar do mesmo.

- (IRRITADO) Só está aqui, porque está em mim. Só é, porque eu sou. Porque penso, logo tenho de existir em pensamento.

- (RI DEBOCHADA) Pretensão de um corpo doente...

- Ingratidão de uma alma deslumbrada...


E seguiram brigando, brigando... Até que o corpo, doente e cansado, caiu desalmado. E a alma seguiu descorporada, talvez livre, mas antes olhou para trás, com uma lágrima de saudade suspensa no olhar... Estava novamente só!

domingo, fevereiro 20, 2005

Aquele Tanquinho

Antes que aquelas roupas, estiradas ao tanque, criassem fungos,
Fiz questão de lavá-las com gotas de sangue,
Para que nele minhas antigas vestes
Mergulhassem fundo, e ali ficassem de molho,
Digerindo as manchas desse meu passado sujo.

Era um tanque como este que me curvo agora:
Alvejado pela cândida esperança que sempre me descoloriu
O fundo escuro e vazio que carrego em cada olho.
Por isso que digo:
Foi num tanque que minha vida evoluiu!
E nunca me importou o fardo a ser lavado,
Pois sempre tive a certeza que, mesmo que pesado,
Haveria de ser um fardo algodoado...
E se fosse seda, linho e até fio de naylon
Também lavaria com destreza, pois,
Sendo tintureiro por natureza,
Tiraria de cada trapo a essência da beleza
Dos fios com que tinham sido costurados.

Não posso dizer que, desse tanque,
- meu velho tanque de guerra -
Tirei as roupas mais belas.
As pretas se tornaram cinzas
E assim me pareceram limpas.
Mas as brancas iam ficando amarelas
O tecido ficava mais fino... e dilacerado
Se antecipava ao seu destino:
Abrigar um velho, antes menino,
Que viveu a vida pra passá-la a limpo,
E hoje, escondido em trapos,
Perdeu o medo de morrer farrapo.

domingo, fevereiro 13, 2005

SÓ AGORA VEJO...

Já não te amava desde o primeiro encontro.
E quando nos falamos aquela primeira vez - no bar -
Eu também não te amava...
Assim como não te amei no primeiro beijo,
E também não te amei na primeira transa
Naquele primeiro dia
E no dia seguinte acordei sem te amar.
Como sempre assim o foi.

Mas também não amei seu cheiro e nem seu corpo,
Não amei suas idéias
E quando te dizia aquelas palavras belas
Elas significavam tudo,
Menos amor.
Nunca te amei.
Mas um dia te quis.

Quis por pensar que o amor nascerias,
Mas também queria por saber que, sem amor,
Nada que viesse de você me prejudicaria.
Por isso que quando me pediu pra te amar,
Não amei.
Nunca te amei.
Mas um dia, e era um dia ruim,
Além de muito distante,
Te quis.

Não sei porque, mas assim o fiz:
Casei, te acolhi, e até, por uma fração,
Pensei que te amei...
Foi quando nossa semente brotou,
Mas logo vi que era por ela meu amor,
Não por você, meu bem.
Era ela o meu porque e a razão da minha teima
Em tentar te querer,
Mesmo sabendo que nunca ia te amar.

Talvez, uma gota de ternura eu tenha cultivado por ti,
Talvez eu tenha rasgado essa pele dura que me cobre,
Só pra costurá-la com o fio de naylon cortante
Que foi a nossa relação.
Sim,
Talvez, e apenas talvez, um dia te amei.
Mas e você o que fez?

Me fez ver o porque da minha falta de amor.
Mostrando todo o seu você.
O seu você que eu nunca amei
E que, agora, não quero mais!

Obrigado por tudo.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

PALAVRAS AO VENTO


Antes que o tom das velhas palavras retornem
Quero entornar esta gota de felicidade
E, sem me limitar a dizer a verdade,
Mentirei a mim mesmo,
Levando a alma um grito de ordem
Pra quando estiver ela quietinha,
Embriagada com minhas mentiras mesquinhas,
Eu poder furtar-lhe das dores que não são minhas
Fazendo com que nunca mais chore
Pelos que neste mundo sofrem.

Assim,
Não vou lamentar o dia decisivo,
Onde um comentário incisivo
Espantou aquele velho sorriso,
Tão presente naqueles que, em paz, agora dormem.

Antes mesmo que o verão acabe,
- talvez no fim dele eu me cale -
Espero regar as flores murchas,
Queimadas por consecutivos sois
De seguidas angustias.

E só, esquecendo este antigo lamento,
Pretendo sarar a mim e ao mundo do velho tormento,
Ser difamado por palavras tristes, perdidas ao vento,
Ao invés da biografia duma alegria fingida
Que, quem sabe um dia, poderia se fazer entre nós:
Eu e a vida.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

METÁSTASE


A meta dissemina-se pela reta e,
Tão forte quanto o leite que sai da teta ou
A força da certeza que se prolifera nas veias,
Arrasta-lhe no sangue as células podres,
Fadadas ao esquecimento,
Filhas do antigo lamento que, agora,
Te farão descer por terra.

Arracou-lhe a raiz cravada na pele, mas,
Eis que,
A porra dela ainda anda na relva e
Contra esta sarna é nossa guerra.
Mesmo que não vencida,
Haveremos de cuspir-lhe na derrota,
E xingar-lhe antes da trégua:
“Sim, virá o fim,
Mas não virá pra mim.
Pois nesses versos me propago,
Me utilizo do tempo como régua
E é com esta que me salvo,
Da rebéldica má formação das células...”

Assim matamo-as, e, aos poucos,
Nos fazemos metástase.


* em homenagem a memória de Maurício Cunha.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

INVERTIDO


Não. Desta vez meu poema é outro.
Não vou falar de tristeza, doença, maldade e
Nem pretendo me adentrar nas sensações do morto.

Desta vez, vou inverter meu raciocínio
Somente pra cumprir o meu desígnio:
Trazer o bem aos que se adentram no mal.

Então hei de lhe dizer, em paz e sereno,
Que dá maldade já provei o veneno
E, deitado no meu leito final, garanto:
Se pular esse caminho terá um melhor destino.

Mas não sou eu quem me perderei mais em conselhos,
Pois foram estes os meus primeiros erros:
Dizer algo que achava bom e, pro meu espanto,
Não passavam de males, lamentos e prantos.

terça-feira, janeiro 11, 2005

FRIA TEMPESTADE


Que maldito frio arrependido
É esse que me prende como um bandido
E me força a lamentar-me
Por algo que me julgo certo e convicto?

Minha insuportável alma gelada,
Longe da fogueira dos desejos,
Percebe que só não é nada,
A não ser um aglomerado de versejos mal feitos.

Mas são versejos
Que me farão voltar a mostrar os dentes
A olhar pra frente e seguir este caminho inconsequente,
Que tracei ao te cuspir de volta pro mundo.

Sim, voltarei a sorrir, como sempre o fiz,
E este fim infeliz, há de ser uma parte da raiz
Da nova vida que me espera, e boa será,
Como é, foi e já era.

Vou, sim, acatar a vingança que me impôs
Por saber-me digno do teu castigo,
Por saber-me ser eu a semente da tua fúria.
Mas ei de ainda ver doçura nos teus olhos em brasa,
Fingindo ser pura, enquanto arrasa esta cruel criatura
Que agora vos fala: Eu.

Entretanto, por enquanto, sigo assim:
Pagando a pena
Que é pequena,
Como a lembrança do nome
Que se perde na rima,
E que só não digo
Por no fim desses versos
Já tê-lo esquecido.

domingo, janeiro 09, 2005

RÉU CONFESSO OU DUVIDAS OU "?".

Vai me dizer o que é a vida?
Há de acabar com esta piada,
Com esse mistério sem graça,
Que pra fazer rir fundou mais de mil raças,
Milhões de tipos, bilhões de seres,
Que O são sem O ser?
-- --
Há de me explicar este breve eterno instante
Para que eu possa dizer aos próximos,
A resposta de mim tão distante, agora,
Passado os dias que eu tudo sabia,
Passado os tempos do sentir-se pra sempre,
Passado o passo desajeitado daquele que aprende andar,
Há de me dizer a explicação do fato que não pelo ato se,
Dentre os verbos, não sei o certo?
?
Não me responde
;
Então,
De que vale o peso nesse crânio oco,
Senão, pra me deixar mais louco?
/
?Percebes que deu a mim e aos meus a dádiva,
E mesmo assim te sentimos em dívida
Por não esclareceres a dúvida?
/
Até chegar a resposta ando pelo incerto,
Neste caminho deserto,
E acalmo a ignorância,
Com a certeza de tê-lo por perto.

quarta-feira, dezembro 15, 2004

VALEU A PENA

Quando responder a pergunta que te fiz,
Já terei saído deste piso frio que pisamos
Pelos poucos anos em que passamos
Os agora intitulados
“Dias ruins de nossas vidas.”

Foram boas aquelas tardes tristes
Com cheiro de despedida
Onde a espera da partida
Se perdia dentre os gritos,
Suplicas de dois aflitos
Despencando de um precipício
Na esperança de cair no amor.

Mas foram as pedras que nos atiramos
As mesmas que nos receberam,
E nelas jazem restos de corações partidos,
Almas despeçadas,
Mas que hão de alimentar a doce Terra
Donde florescerão nossos tão queridos filhos,
Que lerão
No epitáfio do jazigo de nosso amor
A resposta do porque de tanta dor:

“O unico sentimento que vale,
Ainda que findável.
Descanse em paz,
Eternas saudades.”.


sábado, dezembro 04, 2004

EDUCATIVO

Se não se pode fugir,
Quando assim você o quer,
Há de então cuspir
Pra ver se dessa raça
Se desobriga a lamber os pés!

Grita a eles certos palavrões,
Arrepia-lhes a espinha da vergonha,
Pra que esta pureza tacanha,
Não se transforme na arma ferrenha,
De vossa hipocrisia medonha.

Então abocanha estas palavras sujas
Que te cuspo na cara,
E silencia tua docilidade estúpida,
Filha da irmã de uma puta,
Que não se curva ao pau,
Mas por medo dele,
Cultiva uma penosa corcunda
Que lhe trinca os ossos quando se curva
Para lamber os pés da boa conduta.

Salva-te!

Lamente teu passado doce,
Percebendo que a verdadeira doçura
É a força do carinho sincero,
Daquele que diz as verdades duras.

domingo, novembro 28, 2004

ANCESTRAIS

Percebo agora que fui amado num tempo distante
Quando alguém que morria amou o seu filho
De forma tão forte que acabou por amar a mim,
Já que dentre os muitos filhos que vieram depois -
Frutos daquele filho, daquele homem e de outros filhos -
Um deles sou eu.

Naquele outro milênio, onde nem sei o que houve,
Um homem perpetuou seu amor e seus genes,
E cá estou, ainda desfrutando daquele amor eterno.
Então, percebo porque sou amado ao me olhar no espelho,
Pois eu, sem o ser, amo os meus, sem os ver,
E sem saber faço o mesmo que aquele homem.

Agora, sei que ele ainda está aqui,
Amando a mim e a meus filhos, que também são dele
E esse amor nos sustenta
Nos faz seguir amados
Como sempre fomos,
Como sempre seremos,
Graças aos olhos que há milênios
Se cruzam no espelho
Pra não se sentirem mais só.

domingo, novembro 14, 2004

MELANCOLIA

Hoje não tenho tanto pra falar e
Nem as palavras fúteis que me sobresaem sob as unhas
Descrevrem o homem escondido na alcunha
- Ah, essa irônica rima no fim do meu nome –
Que um dia escolheram pra mim.

Hoje que não estou, como nunca estive,
Rodeado de gente e ninguém me ouve,
Posso dizer que sou louco
por achar que a vida, mesmo me dando tanto,
Acabou por me dar pouco.

Mas calo esse reflexo lamentativo,
E só o confesso neste verso convulsivo
Por saber que o grito não será ouvido.

Enxugo-me os olhos,
E levanto sem ter onde ir...
Meu trabalho é aqui, só,
Pensando. Parado.
.
.
Mas o fim dos meus versos se perderam em mim,
Num textinho que foi deletado
Que me falava tanto, mas o destino o fez perdido
E é assim que me sinto.
Por isso grito...
Para ouvidos vazios, mas
Grito! Grito!!! Grito!!!!!!!!!!!!!

Sem ser mais que uma exclamação...
Cujo eco só reverbera em mim
E me faz gritar mais
No silêncio ensurdecedor de mim mesmo
Por meus olhos serem apenas janelas
Com vista pra esse eco assustador da minha própria existencia
Refletida no vazio do texto pobre,
Da exclamação simbólica guardada em mim
E que não quer sair mais... é assim que sou:
A prisão de mim mesmo.
Um ouvido direito cuja companhia é o esquerdo.
Sozinhos nos seus próprios pensamentos
Indignados por ouvir meus lamentos
Mediocres nos meus versejos
E amedrontados pelo que digo e não vejo.
É isso o que sou, agora.

terça-feira, novembro 02, 2004

SOBRE NADA


O que é o nada
Senão um espaço em branco?..
Se bem que,
Poderia ser o nada uma tela preta?..

O nada é ambos!
Contanto que separados,
Vistos em tempos alternados,
Sendo assim:
O nada um todo branco
Ou um nada todo preto.
Cada um que escolha um
E que enxergue do seu jeito.

Mas, na ânsia pra se ver o Nada,
O leigo mistura o preto com o branco
E num golpe ótico, do nada,
Acaba por só perceber o Todo
Que são os nadas sobrepostos,
Interagindo como forças opostas
Onde a busca é a absorção do Todo
Revertido à seu Nada original.

Da fusão bicromática
Surge a possibilidade de formas não estáticas
Com regras não claras
Sempre deformadas pelo movimento constante
Das duas energias conflitantes:
o In e o Yang, como descreveu um chinês;
Cuja representação mais simplista
É o tabuleiro do xadrez.

Daí, então, que tudo veio do nada
E por isso que os Nadas estão em tudo.
Em cada um, em cada forma existe um pouco de nada,
A força que move a vida é a mesma que desestabiliza o nada:
Seja o nada escuro que sofreu um golpe de luz,
Seja um nada claro que se enganou com um jogo de sombras.
...
..
.
Nós?
Nada, é claro.